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2/16/2007 Tá chegando a hora...RUÍDO BRANCO
por Sávio Vilela O que acontece quando a maior banda de rock do planeta cisma de fazer um "show intimista" em um país sedento por grandes concertos e repleto de fãs babando de fome? Em 2003, Chris Martin está meio que gracejando: "Vamos fazer um álbum que nos colocará no Rock and Roll Hall of Fame!". Aí veio o X&Y, de 2005, e o que mais se ouve da boca dos colegas de Coldplay é: "Temos saudade de quando éramos uma banda menor".
O Coldplay ainda não foi indicado ao hall roqueiro da fama, mas enquanto seus integrantes sentem falta dos tempos em que tocavam em muquifos londrinos e não tiravam muito mais de dois dígitos por noite, o bom-mocismo e as melodias cheias de açúcar da banda convertem-se em cifras mastodônticas. No ano em que os figurões da indústria fonográfica começaram a chorar as pitangas e amargar quedas consideráveis nas suas vendas, os engravatados da EMI, pimpões, se gabavam de uma irrisória diminuição dos lucros. Atravessaram sem traumas esse vale de lágrimas graças ao salvo-conduto dos 8,3 milhões de cópias de X&Y, o disco mais vendido de 2005 - que deixou para trás gente como Mariah Carey, Green Day e Black Eyed Peas. O álbum alcançou o topo das paradas em 28 países, vendeu 737 mil cópias logo na semana de lançamento. Entre junho de 2005 e julho de 2006, a longa turnê Twisted Logic faturou mais de 24 milhões de dólares só na passagem pela América do Norte. Somadas as vendas de X&Y e do segundo disco, A Rush of Blood to the Head (o que tem "In My Place", de 2002), são 20 milhões de cópias mundo afora. Equações assim só fazem parte da aritmética dos grandões do pop, mas é isso, o Coldplay é a maior de banda de rock da atualidade. No patamar estratosférico em que estão e seguidos por um séquito religioso de fãs, a habitual comparação com o U2, uma influência confessa, se torna mais certeira. Uma mistura do pianista Schroeder (o amigo do Charlie Brown) com o humor autodepreciativo de Woody Allen, com o epíteto de "vegetariano mais sexy do mundo", Chris Martin chega a ser tão carismático quanto Bono em seus bons tempos e até apresenta uma tendência similar ao ativismo sociopolítico - de um jeito mais autoirônico, claro (veja boxe). Mas a idéia de ostentar uma aura messiânica como a dos irlandeses não é muito aprazível ao Coldplay. Exaurido pelos pesados louros da fama, o baterista Will Champion desabafou à BIZZ durante a passagem da turnê Twisted Logic pela Flórida. "Tenho saudade dos tempos em que éramos só nós quatro, sem tudo isso em volta. Claro que é legal ganhar dinheiro, não vou ser hipócrita, mas era muito bom não ter nada a perder." Martin também já disse que ainda não aprendeu a lidar com a fama. E, segundo ele, "a pressão do sucesso mata a criatividade de uma banda". Possivelmente, foi essa leve megalofobia que fez o grupo desacelerar o ritmo em 2006. No início do ano passado, durante sua aparição no Brit Awards, o vocalista avisou o público que eles não se veriam tão cedo. Imediatamente, manchetes de "É o fim do Coldplay" começaram a pipocar, assim como especulações sobre as "férias de cinco anos" que a banda tiraria. Ironicamente, não demorou muito para que o Coldplay iniciasse um último capítulo da turnê Twisted Logic por Austrália, sudeste asiático e Japão. Apesar de precipitado, o que Martin queria dizer era que ao longo de 2006 ele e seus companheiros dedicariam mais tempo à família, aos amigos e a levar uma vida normal. E a estabelecer um novo ritmo à banda, mantendo uma distância segura - mesmo que temporária - dos referenciais anabolizados da indústria. Querida, encolhi o show Antes que os promotores latinos pudessem terminar o raciocínio lógico e óbvio ("turnê da maior banda do mundo = dinheiro gordo no bolso"), vieram as exigências em relação ao formato dos shows: casas de médio porte (ridiculamente menores que os estádios de anfiteatros e estádios da última turnê mundial) com possibilidade de acomodar "platéias sentadas". Ou seja, quóruns ainda menores. O site da banda avisa que essa é uma oportunidade para que o Coldplay "teste seu novo repertório em um show intimista". As datas no Via Funchal, em São Paulo, têm se revelado um marco da miniaturização no showbiz nacional. Coisa de deixar produtores, fãs e imprensa de cabelos em pé. Na última passagem do Coldplay pelo Brasil, quando promovia o disco A Rush of Blood to the Head, a banda tocou para mais de 12 mil pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Desta vez, mais populares que nunca, tocarão para cerca de 2.700 pessoas sentadinhas por noite, numa configuração que um funcionário do Via Funchal disse ser mais usada para "peças de teatro infantil". Se compararmos com a recente Twisted Logic, a coisa fica mais discrepante. A turnê que promoveu X&Y tinha uma média de 20 mil pagantes por show e era emoldurada por cenários e estruturas gigantescas: telões enormes, lasers, balões gigantes, luzes estroboscópicas, toda parafernália e mise-enscène habituais dos shows de arena. Pode ser que a banda esteja estabelecendo uma tradição. Em março de 2005, antecedendo em poucos meses o lançamento de X&Y, Martin e sua trupe fizeram um show secreto praticamente nos mesmos moldes no pequeno clube Troubadour, em Hollywood. Tocaram composições então inéditas para uma platéia de pouco mais de 300 pessoas. E com a notícia de que o novo álbum dos bons moços, antes esperado para o final do ano, já está quase pronto, tudo leva a crer que a banda teve a idéia pouco feliz de excursionar pela América Latina com um show com o formato diminuto de um "secret gig", desaguando músicas inéditas numa multidão sedenta por catarse coletiva de hits. Os segredos são tantos que boatos chegam a dar conta de que os shows teriam apenas dez músicas - todas novas. Dá para acreditar? Se a intenção da banda com esse formato é criar com os fãs um clima intimista, quentinho e gostosinho, uma coisa aconchegante e discreta só entre eles, nunca se viu preliminares tão barulhentas. O qüiproquó causado na véspera não é nada estimulante. Fãs se revoltaram e se mobilizaram contra os preços e as condições do show. Contudo, todos os ingressos se esgotaram em menos de 48 horas. As linhas destinadas às vendas por telefone permaneceram ocupadas durante todo tempo - houve quem esperasse por mais de 2 horas na linha para ser atendido. A pouco menos de um mês da chegada do Coldplay, a impressão que se tem é que os produtores do show estão inseguros, desinformados e decepcionados com a coisa toda. Luiz Oscar Niemeyer, presidente da produtora que está trazendo a banda ao Brasil, a Planmusic, preferiu nem falar no assunto, alegando não estar "seguro o suficiente para comentar algo". "Fomos pegos de surpresa com esse formato do show. Só tomamos conhecimento disso pelo site da banda. O contrato só foi assinado no dia seguinte à divulgação das datas no site. E 'quebrou a firma' porque estávamos esperando um showzão. Mas não vai ser, por exigência deles. Só nos restou acatar", diz Lana Palmer, assessora da Planmusic. Mesmo se tratando de um espetáculo tão atípico para os padrões da banda, a produtora não teve acesso a mais detalhes e informações sobre as estruturas e os equipamentos que podem ser usados no palco, no repertório e no cenário. "Não lidamos diretamente com ninguém da equipe da banda nem com o empresário dela. Nosso maior contato é com a secretária do escritório que nos vendeu os shows - e que não responde a nossas solicitações", explica Lana. "Não sabemos de nada ainda, apenas que está marcada uma coletiva no dia que chegarem, no domingo. Um dia especialmente ruim para a imprensa." TrackbacksThe trackback URL for this entry is: http://cleidecrepaldi.spaces.live.com/blog/cns!EC9A5971A0572607!578.trak Weblogs that reference this entry
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